A palestra que acabei de assistir na Gulbenkian foi simplesmente brilhante, creio que a melhor que vi até hoje. Foi dada pelo Sir Harold Kroto,
prémio Nobel da Química em 1996 pela descoberta dos fullerenos, aquelas bolinhas curiosas constituídas por 60 átomos de Carbono com inúmeras aplicações em nanotecnologias.
Este é um campo fascinante, que une ciências como a Química, a Física e a Biologia no desenvolvimento de nano-máquinas capazes de desempenhar tarefas de complexidade variável. Kroto comparou a especificidade que se espera de uma nanomáquina à fantástica molécula chamada hemoglobina, responsável pela absorção do Oxigénio nos pulmões e pelo seu transporte até cada uma das células do nosso corpo. É fantástico o modo como molécula sabe quando tem de desempenhar determinada função. Mostrou ainda o nível a que já se chegou. Consegue-se por exemplo por uma molécula a oscilar tipo mola e desempenhar tarefas simples. Um 'pequeno' passo que permitirá por exemplo ter todo o conhecimento do mundo no nosso relógio de pulso, segundo o orador.
Além das questões mais técnicas, abordadas de forma super acessível, Kroto é senhor de um sentido de humor insuperável. Até tinha bombas a explodir de vez em quando no
powerpoint de modo a 'manter-nos acordados'. Falou de questões relacionadas com o fraco interesse pelos jovens pela ciência. Segundo ele, a culpa é da vida fácil que temos. Dantes, as pessoas eram obrigadas a desmontar aparelhos se queriam que eles fossem reparados e durassem muito tempo (tem o mesmo relógio digital há 25 anos graças a isso). Agora? Estraga-se, vai fora e já ninguém se preocupa em perceber o que está errado e como funciona o aparelho. Tem o seu ponto, o senhor! Mostro vídeos dele em
workshops com miúdos a brincarem com modelos de plástico de moléculas de fullerenos, apelando à divulgação da ciência, como instrumento de resolução das grandes questões globais. Mostra um paradoxo genial, em que diz que a imagem dos cientistas é o do senhor de cabelos brancos com óculos-fundo-de-garrafão e culpa Einstein por isso; desculpa-se dizendo que nem sempre é assim mostrando um foto sua de quando era novo e perguntando 'vêem, aí está a prova!'. Depois mostra a foto do Tom Cruise e expressa a sua indignação quanto ao seu avultado salário, perguntando-se se aquele senhor já tinha resolvido alguma grande questão mundial, como o faria um cientista digno de Nobel.
Enfim, estas e outras questões foram abordadas de forma brilhante. Além disso, Kroto mostrou-se ser uma pessoa super simpática, disponibilizando-se para falar com os jovens presentes na sala, tirando fotografias, distribuindo beijos e abraços e dizendo algumas das suas excelentes piadas. Saí de lá super bem disposto e com vontade de fazer alguma coisa importante na vida. Resta saber o quê...